Ela se lembrava só daquela vez em que ouviu um “linda” na rua, seguido de um “ssssssssssss” aspirado, e de uma cara de desejo unilateral. Ah, mas tudo bem, tinha ignorado. E aguentou calada o “vaca metida”, dito pelo mesmo homem, em seguida. Não podia reagir, afinal, “linda” era elogio, não? Ficou confusa, mas deixou passar.
Mesmo assim, ficava feliz por não presenciar atos machistas
no seu cotidiano. Tirando aquela vez, na adolescência, que um moleque desconhecido
tinha chamado sua atenção numa festa puxando seu rabo-de-cavalo. Mas isso
acontecia com todas, era coisa de moleque, né?
Sorriu por não ter vivido nada grave. Só se lembrou de ter
ficado ofendida quando, ao sair do metrô, um homem vestido de palhaço a seguiu,
quase à meia-noite, e a xingou de vadia, disse que tinha vontade de agredi-la e
de matá-la, porque ela não merecia viver. Esses loucos! Qualquer um estava
sujeito a topar com um deles...
Balançou a cabeça para espantar a imagem horrenda. E
suspirou, com pena das mulheres que sofrem violência, já que ela nunca tinha
sido ameaçada por um homem. Apenas naquele dia em que foi acordada, no dia de
seu aniversário, por uma ligação. Do outro lado da linha, uma voz masculina
dizia saber onde ela morava, e que iria até lá para fazer várias coisas que ela
não queria.
A mesma voz ligou trocentas vezes de um celular desconhecido, tirou-lhe o sono e a tranquilidade. Até que resolveu usar o telefone fixo. O número era o do bar que ela mais gostava. E onde nunca mais apareceu. Foi bem chato, mas já estava tudo resolvido.
Cansada pelas lembranças, sentiu-se agradecida
por o machismo ser algo bem distante de sua vida. Dormiu profundamente.

