terça-feira, 28 de agosto de 2012

Amor em SP

Ônibus cheio. Lotado. Sem lugar para se apoiar, nem para respirar adequadamente, encalacrada entre cinco pessoas, ela sentiu seu celular tremer.

- É o gatinho – disse à amiga, que estava sentada sobre o cano amarelo "fosforescente" que delimitava o espaço ao lado do primeiro banco.

Esgueirou-se e, após encostar inocentemente nas coxas do passageiro de trás, tirou o celular do bolso e leu o SMS.

- Kd vc? Tô no ponto.

A moça de longos cabelos negros sorriu. Já não incomodavam mais todos aqueles desconhecidos tocando nela sem querer.

- Tô no bus parado em frente.

- Jééézois!

Ele se espantou. Seu inconsciente talvez lhe dissesse que não caberiam pessoas reais naquela lata de sardinha, para a qual os peixinhos insistiam em continuar se jogando, desafiando as leis da física.

A cada pessoa que ele via empurrar a vítima que sobrava no último degrau do ônibus, ela provavelmente sentia um tranco no quadril. E se irritava.

Tão perto e tão longe. Poucos metros os separavam. Mas cada centímetro era intransponível.

- Olha prá mim, amor!

Ela fez tchauzinho em direção ao ponto, sem encontrar o olhar do amado. Nem a silhueta, nem ao menos ponta do cabelo. Mas, pelo suspiro acanhado, demonstrou sentir um afago em suas madeixas, ou o cheiro de seu perfume favorito.

O telefone tocou. Era ele. Para atender, ela suspendeu o braço. Por muito pouco não deixou a marca do cotovelo no supercílio do passageiro ao lado.

- Alô. (...) Tudo, e você? (...) Não me viu? Ahhh. Fiz tchauzinho prá você. (...) Também vou pra casa, tá tarde. (...) Prá você também (...) Beijo, tchau.

Levantou os dois ombros, em sinal de resignação. A amiga, ansiosa com a demora do ônibus em sair do ponto, ergueu os ombros de volta.

Calor, prova, desconforto, greve, aperto, sono. Voltaram a reclamar dos assuntos de sempre, enquanto as portas do coletivo se fechavam lentamente.   

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Observação de colecionador

O gorro verde escondia os poucos cabelos brancos, lisos, que ainda existiam. O andar, vagaroso, e as costas, levemente curvadas para frente, sentiam o peso do tempo.

As calças cinzas, meio puídas e amassadas, seguramente tinham trabalhado um dia todo. Ou mais. A camiseta branca, larga e de gola esgarçada agia com despreocupação juvenil.

O contrário mostravam os olhos. Abertos, insistentemente abertos, inseguros, inconstantes. Sem ao menos o alívio de um mover de pálpebras. Nada. As pupilas, envoltas de verde, miravam o chão negro, tão dilatadas quanto tímidas.

A boca não costumava falar muito. Ou não parecia. Vincos apertados, cadeados, ligavam os finos lábios até quase a entrada do nariz.

Ao notarem que uma sombra se aproximava, as dilatadas pupilas se ergueram levemente. Os finos lábios se abriram.

- Moça, posso perguntar uma coisa?

As pupilas se voltaram para baixo outra vez. E os lábios, fecharam-se.

- Claro.

A ponta da língua dela já tinha todas as coordenadas para o banheiro, adiantando a pergunta com base na tamanha timidez que aquele senhorzinho parecia sentir.

- É que... eu... eu... tenho uma coleção de fotos de pés de mulher. Posso fotografar o seu?