As calças cinzas, meio puídas e amassadas, seguramente tinham
trabalhado um dia todo. Ou mais. A camiseta branca, larga e de gola esgarçada
agia com despreocupação juvenil.
O contrário mostravam os olhos. Abertos, insistentemente abertos, inseguros, inconstantes. Sem ao menos o alívio de um mover de pálpebras. Nada. As pupilas, envoltas de verde, miravam o chão negro, tão dilatadas quanto tímidas.
A boca não costumava falar muito. Ou não parecia. Vincos apertados, cadeados, ligavam os finos lábios até quase a entrada do nariz.
Ao notarem que uma sombra se aproximava, as dilatadas pupilas se ergueram levemente. Os finos lábios se abriram.
- Moça, posso perguntar uma coisa?
As pupilas se voltaram para baixo outra vez. E os lábios, fecharam-se.
- Claro.
A ponta da língua dela já tinha todas as coordenadas para o banheiro, adiantando a pergunta com base na tamanha timidez que aquele senhorzinho parecia sentir.
- É que... eu... eu... tenho uma coleção de fotos de pés de mulher. Posso fotografar o seu?
Sensível. Divertido porém triste - afinal, real.
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