Cantava, balangava contida _aquele movimento não se podia chamar dança_, sorria. Um passado de desilusões e vitórias adolescentes voltava à memória.
Perdida em pensamentos, vi um sorriso. E uma covinha. Do que ela ria?
Sem pena nem medo, corria de um lado para o outro me olhando. E rindo.
Cochichava com a mãe, e ria. Cochichava com o irmão, e ria.
Eu, sem nada entender, passei a sorrir também.
Pobre Tony Garrido, que, no alto da sua loucura, já não era páreo para uma menininha risonha. E espevitada.
Quanto mais ela ria, mais curiosa eu ficava. De que ria a menina?
No alto dos 10 anos de vida, nem seus olhos azulzinhos nem seu cabelo dourado podiam entender minha curiosidade. Mas seguiam rindo.
Quando a música saiu do primeiro plano, a curiosidade virou angústia. Ou quando a angústia apareceu, jogou a música pro segundo plano, não sei bem. Por que ria a menina?
O sorriso era uma graça, aliás. Daqueles que fazem lembrar do ruivo sardento que sentava na fileira da frente na segunda série. Ou do filho pimentinha da vizinha.
Mas a graça acabou. E deixei de conseguir rir junto. Na minha cabeça pululava a dúvida que secava qualquer tipo de diversão.
Cara de pau, fui perguntar. “Por que você está rindo, mocinha?”
De resposta, uma gargalhada.
Desesperada, recorri à mãe. “Tudo bom com a senhora? Por que sua filha está rindo de mim? Não tem problema, o sorriso dela é lindo, mas, por quê?”
Uma mão branca já enrugada tapou a boca e o nariz de uma senhora tímida, que ria de nervoso, sem saber onde se esconder.
Sorri e voltei ao
meu lugar, a poucos metros dali. Sorria por fora. Queimava por dentro. Por que ria a menina?
Decidi focar no
sorriso Colgate do Tony e esquecer a pimentinha. Mas ela não parava de rir!Mudei de lugar, ela acompanhou. Coloquei-me atrás da pilastra, ela acompanhou. Não corri por pura noção do ridículo.
Será que ela existia mesmo? Estaria eu vendo coisas? Seria meu excesso de trabalho algum tipo de ópio? Estaria o pão de queijo batizado com absinto?
O mundo começou a girar ao meu redor. E o único som que eu ouvia era a gargalhada infantil.
Duende? Chuck? Enviada do demônio? Darth Vader mirim? Coringa da pré-escola?
Desisti. Sem forças para lutar contra toda aquela alegria, meu diafragma pulou. Gargalhei. Passei a ser aquela criança feliz.
Não importava mais o
porquê, mas era engraçado.
Um engraçado
sem razão, sem intenção, sem amarras, sem dúvidas.A música (“O pensamentô, é fundamentô, eu ganho o mundo sem sair do lugar....”) voltou ao primeiro plano. Mas não desfocou toda aquela graça.
Inebriada de bobose, só me restava rir. E mostrar a língua, e fazer careta.
Tive saudade do tempo em que tudo era engraçado, fosse embaixo dos lençóis da cabaninha, fosse no escuro do gato-mia.
Mas crescer é se encher de razão e buscar todos os porquês.
A razão é uma chatice... maldosa, desconfiada, cínica, orgulhosa. Assim como somos nós. Ou muitos de nós.
Melhor é comer algodão doce.
Cadê o carroceiro?
grande fefa, não dá para parar de ler, a gente quer saber porque a capetinha está rindo!, mas depois você, magistralmente, nos faz ver que a razão muitas vezes é destrutiva, antônima de uma vida saudável e feliz. texto com sabor é isso, e fez uma crônica à moda antiga, rubem braga ficaria orgulhoso! tá aí um bom perfil para o seu blog, crônicas do cotidiano. pra salgar e adocicar essa rotina cinza que vai comendo a vida da gente. abraço!
ResponderExcluirGracias, mestre Zé Carinho, isso é que é motivação! Mas não exagere taaaanto assim ;)
ExcluirFê!!! Adorei! E que coisa que fica de ainda querer saber do motivo da risada da menina mesmo horas depois de ler o texto! :) Beijos!
ResponderExcluirFê!!! Parabéns pelo blog e pela coragem de expor seus textos e sentimentos e vontades....
ResponderExcluirFicarei de olho nele sempre!
Beijos
Obrigadão, Rapha! Mas não tenho coragem para expor meus sentimentos na net, e nem minhas vontades! São só os textos mesmo, com histórias que aparecem por aí e eu fico louca prá contar do meu jeito. Bjo bjo!!
ExcluirSensacional.
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