terça-feira, 9 de outubro de 2012

Quase lá

                              "A Persistência da Memória" (1931) - Salvador Dalí
 
Ponteiros, minutos, segundos. Tempo passa, passatempo.
Tic-tac, não vai dar. De novo. Condução lotada, bomba prestes a explodir.
Droga, já chegaram. Eu, ainda não.   
Farol fechado. Uma gota de preocupação rola pela face.
Não vai dar.
Eles se reúnem, começam a operação. Ideias, palavras, folhas.
Eu vejo as folhas que o ônibus arranca das árvores. Sem ideias, sem palavras.
Não vai dar.
Um tranco, uma aceleração. Pode ser. Pode ser?
A imaginação voa longe, e os ponteiros param por um instante.
Chego.
Mais ideias, mais palavras, mais folhas, mais dúvidas.
Tá quase lá.
A operação segue, estão todos. Um calafrio de ansiedade sobe pela espinha.
Não pode explodir, temos de controlar.
Caminhamos, decidimos, suspiramos, hesitamos.
Tá quase lá.
Operação decorada. A confiança entra pelas narinas, estufa o peito, fortalece o passo.
Tá quase lá.
Quase.
Frente a frente com o objetivo, ele escapa por entre os dedos, escorre para baixo.
Bate a porta e foge pelo corredor.
Atônitos, corremos atrás dele.
Temos de chegar.
Os ponteiros param de novo. Prendemos a respiração por braçadas mais rápidas
Temos de chegar.
Última cartada...
Mas nada de Blackjack. Nada de Royal Straight Flush.
O tempo volta a correr como um meteoro, cai e explode. Voam destroços para todos os lados.
Não deu.
O objetivo olha para trás, cínico. Fuma um cigarro de superioridade. Hoje não, pensa. E sorri.
Não deu.  
De novo, não, não assim.
Queria só voltar os ponteiros. Só um pouquinho. Por alguns milésimos.
E, no meio tempo, cortar uma palavra, editar um suspiro, acelerar uma hesitação.
Mas não deu. Explodiu.
Dos destroços surge uma roda.
A mesma roda.
E, dentro dela, os ratos voltam a correr.

domingo, 7 de outubro de 2012

Dia de tomar caldo de cana e de mudar o mundo

Imagem do 'Blog na Luta': http://avancarnaluta2007.blogspot.com.br/ 
 
Desde pequena, dia de votar era dia diferente, dia importante. A feira ficava mais curtinha e cheia de gente, bem em frente ao local de votação. Dava vontade de colocar a roupa preferida e de arrumar o cabelo antes de sair.

Ao lado dos pais, que pareciam gigantes, a sujeira toda assustava. Por que tanto papel jogado? Aquelas caras, no chão, eram feias e, com marcas de pisões, pareciam não prestar para muito. As filas sempre eram grandes e a ansiedade, maior ainda.

Tudo valia pelo momento do X, com a mão da mãe ou do pai por cima, escolhendo o que viria mais para frente. Não entendia a diferença entre PT e PSDB, entre PP e PSTU, nem porque os adultos votavam em um ou o outro. Mas tinha uma bela sensação de participação.

Afinal, domingo de eleição era dia de comer pastel, tomar caldo de cana e mudar o mundo. E o gostinho de tudo isso era doce, bem doce. O sol parecia brilhar mais forte e mais bonito e as pessoas pareciam andar como se caminhassem para o tão falado ‘futuro melhor’.

Até a feira, entidade superior dominical, parava para ver. Quer dizer, andava mais devagar. O moço das panelas não ia, mas sim o das frutas, e sempre dava tempo de passar para pegar as bananas e as maçãs após colocar o papel na urna.

Anos depois, a mesma menininha de rabo de cavalo que descia a rua de mãos dadas até o colégio estaciona o carro nas proximidades. Chegando do trabalho, ou preparada para trabalhar em seguida.

Nos santinhos no chão, pisa com força. Continuam assustadoras aquelas caras de sorrisos plásticos. O X não existe mais, mas ansiedade é pelo barulhinho final da urna eletrônica.

As pessoas, não mais em filas intermináveis, continuam gigantes. Gigantes como o jovem que desceu 20 degraus com o pé direito engessado, apoiado em muletas, e como a senhorinha que os subiu apoiada em sua bengala, com o amparo do neto (a necessidade de registro para zona eleitoral especial precisa de divulgação mais ampla e consistente!).

A feira continua lá, assim como a Brasília azul-calcinha do moço que vende ervas, a banana, a maçã, o caldo de cana. O quilo da uva a quatro reais está muito mais caro, mas está.

Já o gosto doce da garapa se mistura ao cheiro forte da barraca do peixe, que sempre ficou ao lado, mas passava despercebida. Antes e depois do prazer do caldo de cana, esse odor angustiante queima as narinas. Gosto de eleições. Cheiro de eleições.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Detalhes

Foto: http://kid-bentinho.blogspot.com.br/ (não sei de onde o blog tirou)
 
Dia difícil. Sono atrasado, muito trabalho. Semblante fechado após horas e horas trabalhando em frente à tela. As paredes já não existiam: tudo virara um amontoado de informações, notícias, bytes, pensamentos, frustrações, vontades.

Ao fundo, surgiu um conjunto de assobios. Desses melódicos, emocionados. Produzidos por não se sabe quem, não se sabe onde, mas que se propagaram até o quarto andar e me despertaram do transe.

Nem a atenção concentrada, atrapalhada, abafava o som no inconsciente. Eram cinco soprinhos. Um deles mais agudo...

A-há, Roberto Carlos! “Fi-fi-fi-fÍ-fi...” = “Eu tenho tanto....” 

Não sou fã do Roberto Carlos, nunca fui. Mas os assobios me conquistaram.

E continuaram conquistando, a cada dia. Não ocorrem sempre, têm vontade própria. Às vezes de manhã, às vezes à tarde. Às vezes cinco vezes por semana, às vezes uma, sempre em horário comercial.

Quando menos espero, “fi-fi-fi-fÍ-fi”, eles aparecem. Já cheguei a pensar que estava ouvindo coisas, mas me convenci de que deve ser o moço do lava-rápido de carros ao lado do prédio, ou alguém que trabalhe por aqui. 

Não importa. A melodia chega como uma surpresa e resume a vida, por segundos, a um assobio. Quando ela não vem, fica aquela falta suavidade no ar.

Falta a mente vazia pelo tempo de cinco assoprinhos. Falta o gasto de outros quatro assoprinhos (“prá lhe falar”) pensando de onde vem o som. E os derradeiros nove (“mas com palavras, não sei dizer...”) divagando pelos motivos que levam o sujeito ou sujeita a gorjear.  

Depois, o assobio se vai. Nunca avança disso. Não precisa. Ficam as reticências... e toda a imensidão que elas podem esconder.

O dia difícil volta. O sono atrasado volta. O trabalho acumulado também volta. Mas o semblante fica colorido por aquele sorriso de boca fechada, com olhos apertados.

Detalhes tão pequenos e tão grandes. De repente, aparece um lado admirador de Roberto Carlos dentro de mim.

*** O blog de onde tirei a foto tem um post sobre músicas com assobios: http://kid-bentinho.blogspot.com.br/2011/02/as-melhores-musicas-com-assobios.html 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Amor em SP

Ônibus cheio. Lotado. Sem lugar para se apoiar, nem para respirar adequadamente, encalacrada entre cinco pessoas, ela sentiu seu celular tremer.

- É o gatinho – disse à amiga, que estava sentada sobre o cano amarelo "fosforescente" que delimitava o espaço ao lado do primeiro banco.

Esgueirou-se e, após encostar inocentemente nas coxas do passageiro de trás, tirou o celular do bolso e leu o SMS.

- Kd vc? Tô no ponto.

A moça de longos cabelos negros sorriu. Já não incomodavam mais todos aqueles desconhecidos tocando nela sem querer.

- Tô no bus parado em frente.

- Jééézois!

Ele se espantou. Seu inconsciente talvez lhe dissesse que não caberiam pessoas reais naquela lata de sardinha, para a qual os peixinhos insistiam em continuar se jogando, desafiando as leis da física.

A cada pessoa que ele via empurrar a vítima que sobrava no último degrau do ônibus, ela provavelmente sentia um tranco no quadril. E se irritava.

Tão perto e tão longe. Poucos metros os separavam. Mas cada centímetro era intransponível.

- Olha prá mim, amor!

Ela fez tchauzinho em direção ao ponto, sem encontrar o olhar do amado. Nem a silhueta, nem ao menos ponta do cabelo. Mas, pelo suspiro acanhado, demonstrou sentir um afago em suas madeixas, ou o cheiro de seu perfume favorito.

O telefone tocou. Era ele. Para atender, ela suspendeu o braço. Por muito pouco não deixou a marca do cotovelo no supercílio do passageiro ao lado.

- Alô. (...) Tudo, e você? (...) Não me viu? Ahhh. Fiz tchauzinho prá você. (...) Também vou pra casa, tá tarde. (...) Prá você também (...) Beijo, tchau.

Levantou os dois ombros, em sinal de resignação. A amiga, ansiosa com a demora do ônibus em sair do ponto, ergueu os ombros de volta.

Calor, prova, desconforto, greve, aperto, sono. Voltaram a reclamar dos assuntos de sempre, enquanto as portas do coletivo se fechavam lentamente.   

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Observação de colecionador

O gorro verde escondia os poucos cabelos brancos, lisos, que ainda existiam. O andar, vagaroso, e as costas, levemente curvadas para frente, sentiam o peso do tempo.

As calças cinzas, meio puídas e amassadas, seguramente tinham trabalhado um dia todo. Ou mais. A camiseta branca, larga e de gola esgarçada agia com despreocupação juvenil.

O contrário mostravam os olhos. Abertos, insistentemente abertos, inseguros, inconstantes. Sem ao menos o alívio de um mover de pálpebras. Nada. As pupilas, envoltas de verde, miravam o chão negro, tão dilatadas quanto tímidas.

A boca não costumava falar muito. Ou não parecia. Vincos apertados, cadeados, ligavam os finos lábios até quase a entrada do nariz.

Ao notarem que uma sombra se aproximava, as dilatadas pupilas se ergueram levemente. Os finos lábios se abriram.

- Moça, posso perguntar uma coisa?

As pupilas se voltaram para baixo outra vez. E os lábios, fecharam-se.

- Claro.

A ponta da língua dela já tinha todas as coordenadas para o banheiro, adiantando a pergunta com base na tamanha timidez que aquele senhorzinho parecia sentir.

- É que... eu... eu... tenho uma coleção de fotos de pés de mulher. Posso fotografar o seu?




quarta-feira, 20 de junho de 2012

Um sorriso e uma covinha

   Tony Garrido tocava, pulava e vibrava. Uma multidão de tamanho questionável _a prefeitura dizia ter 30 mil no descampado da comemoração_ não se movia. Eu sim.
  Cantava, balangava contida _aquele movimento não se podia chamar dança_, sorria.  Um passado de desilusões e vitórias adolescentes voltava à memória.
  Perdida em pensamentos, vi um sorriso. E uma covinha. Do que ela ria?
  Sem pena nem medo, corria de um lado para o outro me olhando. E rindo.
  Cochichava com a mãe, e ria. Cochichava com o irmão, e ria.
  Eu, sem nada entender, passei a sorrir também.
  Pobre Tony Garrido, que, no alto da sua loucura, já não era páreo para uma menininha risonha. E espevitada.
  Quanto mais ela ria, mais curiosa eu ficava. De que ria a menina?
   No alto dos 10 anos de vida, nem seus olhos azulzinhos nem seu cabelo dourado podiam entender minha curiosidade. Mas seguiam rindo.
  Quando a música saiu do primeiro plano, a curiosidade virou angústia. Ou quando a angústia apareceu, jogou a música pro segundo plano, não sei bem.  Por que ria a menina?
  O sorriso era uma graça, aliás. Daqueles que fazem lembrar do ruivo sardento que sentava na fileira da frente na segunda série. Ou do filho pimentinha da vizinha.
  Mas a graça acabou. E deixei de conseguir rir junto. Na minha cabeça pululava a dúvida que secava qualquer tipo de diversão.
  Cara de pau, fui perguntar. “Por que você está rindo, mocinha?”
  De resposta, uma gargalhada.
  Desesperada, recorri à mãe. “Tudo bom com a senhora? Por que sua filha está rindo de mim? Não tem problema, o sorriso dela é lindo, mas, por quê?”
  Uma mão branca já enrugada tapou a boca e o nariz de uma senhora tímida, que ria de nervoso, sem saber onde se esconder.
  Sorri e voltei ao meu lugar, a poucos metros dali. Sorria por fora. Queimava por dentro. Por que ria a menina?
  Decidi focar no sorriso Colgate do Tony e esquecer a pimentinha. Mas ela não parava de rir!
  Mudei de lugar, ela acompanhou. Coloquei-me atrás da pilastra, ela acompanhou. Não corri por pura noção do ridículo.
  Será que ela existia mesmo? Estaria eu vendo coisas? Seria meu excesso de trabalho algum tipo de ópio? Estaria o pão de queijo batizado com absinto?
  O mundo começou a girar ao meu redor. E o único som que eu ouvia era a gargalhada infantil.
  Duende? Chuck? Enviada do demônio? Darth Vader mirim? Coringa da pré-escola?
  Desisti. Sem forças para lutar contra toda aquela alegria, meu diafragma pulou. Gargalhei. Passei a ser aquela criança feliz.
  Não importava mais o porquê, mas era engraçado.
  Um engraçado sem razão, sem intenção, sem amarras, sem dúvidas.
  A música (“O pensamentô, é fundamentô, eu ganho o mundo sem sair do lugar....”) voltou ao primeiro plano. Mas não desfocou toda aquela graça.
  Inebriada de bobose, só me restava rir. E mostrar a língua, e fazer careta.
  Tive saudade do tempo em que tudo era engraçado, fosse embaixo dos lençóis da cabaninha, fosse no escuro do gato-mia.
  Mas crescer é se encher de razão e buscar todos os porquês.
  A razão é uma chatice... maldosa, desconfiada, cínica, orgulhosa. Assim como somos nós. Ou muitos de nós. 
  Melhor é comer algodão doce.
  Cadê o carroceiro?