domingo, 7 de outubro de 2012

Dia de tomar caldo de cana e de mudar o mundo

Imagem do 'Blog na Luta': http://avancarnaluta2007.blogspot.com.br/ 
 
Desde pequena, dia de votar era dia diferente, dia importante. A feira ficava mais curtinha e cheia de gente, bem em frente ao local de votação. Dava vontade de colocar a roupa preferida e de arrumar o cabelo antes de sair.

Ao lado dos pais, que pareciam gigantes, a sujeira toda assustava. Por que tanto papel jogado? Aquelas caras, no chão, eram feias e, com marcas de pisões, pareciam não prestar para muito. As filas sempre eram grandes e a ansiedade, maior ainda.

Tudo valia pelo momento do X, com a mão da mãe ou do pai por cima, escolhendo o que viria mais para frente. Não entendia a diferença entre PT e PSDB, entre PP e PSTU, nem porque os adultos votavam em um ou o outro. Mas tinha uma bela sensação de participação.

Afinal, domingo de eleição era dia de comer pastel, tomar caldo de cana e mudar o mundo. E o gostinho de tudo isso era doce, bem doce. O sol parecia brilhar mais forte e mais bonito e as pessoas pareciam andar como se caminhassem para o tão falado ‘futuro melhor’.

Até a feira, entidade superior dominical, parava para ver. Quer dizer, andava mais devagar. O moço das panelas não ia, mas sim o das frutas, e sempre dava tempo de passar para pegar as bananas e as maçãs após colocar o papel na urna.

Anos depois, a mesma menininha de rabo de cavalo que descia a rua de mãos dadas até o colégio estaciona o carro nas proximidades. Chegando do trabalho, ou preparada para trabalhar em seguida.

Nos santinhos no chão, pisa com força. Continuam assustadoras aquelas caras de sorrisos plásticos. O X não existe mais, mas ansiedade é pelo barulhinho final da urna eletrônica.

As pessoas, não mais em filas intermináveis, continuam gigantes. Gigantes como o jovem que desceu 20 degraus com o pé direito engessado, apoiado em muletas, e como a senhorinha que os subiu apoiada em sua bengala, com o amparo do neto (a necessidade de registro para zona eleitoral especial precisa de divulgação mais ampla e consistente!).

A feira continua lá, assim como a Brasília azul-calcinha do moço que vende ervas, a banana, a maçã, o caldo de cana. O quilo da uva a quatro reais está muito mais caro, mas está.

Já o gosto doce da garapa se mistura ao cheiro forte da barraca do peixe, que sempre ficou ao lado, mas passava despercebida. Antes e depois do prazer do caldo de cana, esse odor angustiante queima as narinas. Gosto de eleições. Cheiro de eleições.

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