Imagem do 'Blog na Luta': http://avancarnaluta2007.blogspot.com.br/
Ao lado dos pais, que pareciam gigantes, a sujeira toda
assustava. Por que tanto papel jogado? Aquelas caras, no chão, eram feias e, com
marcas de pisões, pareciam não prestar para muito. As filas sempre eram grandes
e a ansiedade, maior ainda.
Tudo valia pelo momento do X, com a mão da mãe ou do pai por
cima, escolhendo o que viria mais para frente. Não entendia a diferença entre PT
e PSDB, entre PP e PSTU, nem porque os adultos votavam em um ou o outro. Mas tinha
uma bela sensação de participação.
Afinal, domingo de eleição era dia de comer pastel, tomar
caldo de cana e mudar o mundo. E o gostinho de tudo isso era doce, bem doce. O
sol parecia brilhar mais forte e mais bonito e as pessoas pareciam andar como
se caminhassem para o tão falado ‘futuro melhor’.
Até a feira, entidade superior dominical, parava para ver.
Quer dizer, andava mais devagar. O moço das panelas não ia, mas sim o das
frutas, e sempre dava tempo de passar para pegar as bananas e as maçãs após
colocar o papel na urna.
Anos depois, a mesma menininha de rabo de cavalo que descia
a rua de mãos dadas até o colégio estaciona o carro nas proximidades. Chegando
do trabalho, ou preparada para trabalhar em seguida.
Nos santinhos no chão, pisa com força. Continuam assustadoras
aquelas caras de sorrisos plásticos. O X não existe mais, mas ansiedade é pelo
barulhinho final da urna eletrônica.
As pessoas, não mais em filas intermináveis, continuam
gigantes. Gigantes como o jovem que desceu 20 degraus com o pé direito
engessado, apoiado em muletas, e como a senhorinha que os subiu apoiada em sua
bengala, com o amparo do neto (a necessidade de registro para zona eleitoral especial
precisa de divulgação mais ampla e consistente!).
A feira continua lá, assim como a Brasília azul-calcinha do
moço que vende ervas, a banana, a maçã, o caldo de cana. O quilo da uva a quatro
reais está muito mais caro, mas está.
Já o gosto doce da garapa se mistura ao cheiro forte da barraca
do peixe, que sempre ficou ao lado, mas passava despercebida. Antes e depois
do prazer do caldo de cana, esse odor angustiante queima as narinas. Gosto de
eleições. Cheiro de eleições.

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