- É o gatinho – disse à amiga, que estava sentada sobre o
cano amarelo "fosforescente" que delimitava o espaço ao lado do primeiro banco.
Esgueirou-se e, após encostar inocentemente nas coxas do passageiro de
trás, tirou o celular do bolso e leu o SMS.
- Kd vc? Tô no ponto.
A moça de longos cabelos negros sorriu. Já não incomodavam
mais todos aqueles desconhecidos tocando nela sem querer.
- Tô no bus parado em frente.
- Jééézois!
Ele se espantou. Seu inconsciente talvez lhe dissesse que
não caberiam pessoas reais naquela lata de sardinha, para a qual os peixinhos
insistiam em continuar se jogando, desafiando as leis da física.
A cada pessoa que ele via empurrar a vítima que sobrava no
último degrau do ônibus, ela provavelmente sentia um tranco no quadril. E se irritava.
Tão perto e tão longe. Poucos metros os separavam. Mas cada
centímetro era intransponível.
- Olha prá mim, amor!
Ela fez tchauzinho em direção ao ponto, sem encontrar o
olhar do amado. Nem a silhueta, nem ao menos ponta do cabelo. Mas,
pelo suspiro acanhado, demonstrou sentir um afago em suas madeixas, ou o cheiro de seu perfume
favorito.
O telefone tocou. Era ele. Para atender, ela suspendeu o
braço. Por muito pouco não deixou a marca do cotovelo no supercílio do passageiro
ao lado.
- Alô. (...) Tudo, e você? (...) Não me viu? Ahhh. Fiz
tchauzinho prá você. (...) Também vou pra casa, tá tarde. (...) Prá você também
(...) Beijo, tchau.
Levantou os dois ombros, em sinal de resignação. A amiga,
ansiosa com a demora do ônibus em sair do ponto, ergueu os ombros de
volta.
Calor, prova, desconforto, greve, aperto, sono. Voltaram a
reclamar dos assuntos de sempre, enquanto as portas do coletivo se fechavam
lentamente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário