Um ano de parênteses na vida real. Ainda presa às origens, ela
se jogou. Mas sabia que tinha data certa para voltar.
Esse dia chegou mais rápido do que esperava. A sensação era
a de retomar uma vida passada, fechando a janela do desconhecido por um tempo.
Quanto havia vivido nesse ano! Voltava com a cabeça meio revirada.
Revirada de ideias, de aromas, de sabores, de imagens, de pessoas, de
sentimentos. Sabia que jamais voltaria a ter os pés pregados no chão.
A roupa de “eu mesma”, da qual se havia despido ao pisar no
aeroporto, agora a esperava com uma plaquinha de “seja bem-vinda” no
desembarque. Sentiu-se em casa ao respirar o ar capixaba, úmido.
Aguardava o momento de chegar, abrir a porta de seu quarto e
perceber seu cheirinho de lar. Queria desfazer as malas pouco a pouco, e colocar
as blusas e as histórias no armário. Já se imaginava afofando o travesseiro e os
pensamentos, e colocando o “jet lag” para dormir.
Já em casa, entrou com o pé direito, limpando a sapatilha no
capacho. Sorriu para a mãe, deu um abraço do tamanho da sua saudade. Agradeceu
ao familiar que se ocupou interinamente de parte das suas obrigações. Tomou um
copo de água fresca com gosto de acolhimento.
Subiu as escadas com um passo de receio e outro de
segurança. Um passo de incerteza e outro de expectativa. Abriu a porta do
quarto, onde a vida real a esperava, trancada, havia um ano.
Mas não houve reencontro. Os cupins já haviam devorado tudo.

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