domingo, 27 de outubro de 2013

Distante

Ela sabia que o machismo existia. E o achava um absurdo. Ela temia por suas amigas, mas se sentia feliz por não ser afetada por esse tipo de comportamento.
 
Ela se lembrava só daquela vez em que ouviu um “linda” na rua, seguido de um “ssssssssssss” aspirado, e de uma cara de desejo unilateral. Ah, mas tudo bem, tinha ignorado. E aguentou calada o “vaca metida”, dito pelo mesmo homem, em seguida. Não podia reagir, afinal, “linda” era elogio, não? Ficou confusa, mas deixou passar.

Mesmo assim, ficava feliz por não presenciar atos machistas no seu cotidiano. Tirando aquela vez, na adolescência, que um moleque desconhecido tinha chamado sua atenção numa festa puxando seu rabo-de-cavalo. Mas isso acontecia com todas, era coisa de moleque, né?

Sorriu por não ter vivido nada grave. Só se lembrou de ter ficado ofendida quando, ao sair do metrô, um homem vestido de palhaço a seguiu, quase à meia-noite, e a xingou de vadia, disse que tinha vontade de agredi-la e de matá-la, porque ela não merecia viver. Esses loucos! Qualquer um estava sujeito a topar com um deles...

Balançou a cabeça para espantar a imagem horrenda. E suspirou, com pena das mulheres que sofrem violência, já que ela nunca tinha sido ameaçada por um homem. Apenas naquele dia em que foi acordada, no dia de seu aniversário, por uma ligação. Do outro lado da linha, uma voz masculina dizia saber onde ela morava, e que iria até lá para fazer várias coisas que ela não queria.
 
A mesma voz ligou trocentas vezes de um celular desconhecido, tirou-lhe o sono e a tranquilidade. Até que resolveu usar o telefone fixo. O número era o do bar que ela mais gostava. E onde nunca mais apareceu. Foi bem chato, mas já estava tudo resolvido.

Cansada pelas lembranças, sentiu-se agradecida por o machismo ser algo bem distante de sua vida. Dormiu profundamente.
 
                                           http://mulher.uol.com.br/moda/noticias/redacao/2010/02/04/dita-von-teese-cria-mascara-de-dormir-para-a-moschino.htm
 

4 comentários:

  1. Experiencia sentida por toda e nenhuma mulher... depende dos olhos de quem vê... depende do coração de quem sente. Mas, ah... é frescura...

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    1. Boa, Fê. Há os que desconhecem a pílula vermelha. E há os que preferiram tomar a azul, e continuar no mundo de sempre.

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  2. Que tenso, Fê! Mas que ótimo texto! Sou fã do jeito que você mexe com as palavras, mesmo que seja para contar algo que a gente não queria que acontecesse, que nem deveria haver como contar, pra simplesmente não existir. E além disso, acho que vai ajudar muita gente a fazer a mesma reflexão.

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    1. Brigada, Jú. E concordo com você: quem sabe um dia ninguém mais vai precisar contar? Quem sabe vai virar marca de um passado ruim e retrógrado? Oxalá! :)

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